Princípios da Improvisação: Vocabulário

Princípios da Improvisação: Vocabulário

Dentro do contexto de uma improvisação, vocabulário representa o conjunto de ideias musicais conectadas por semelhanças estilísticas que compõe o tecido estético de determinada linguagem, se aproximando, enquanto caracterização, de seu correspondente na linguagem falada. 

Assim como as crianças aprendem a falar sua língua nativa imitando os mais velhos que já sabem falar, da mesma maneira jovens músicos aprendem a ‘falar jazz’ imitando improvisadores experientes. Em parte, isso envolve a aquisição de um vocabulário complexo de frases convencionais e componentes de frase, dos quais improvisadores lançam mão na hora de formular uma melodia de um solo de jazz. Improvisos completos gravados também fornecem modelos.

A frase é o elemento organizador da linguagem, o que a define. Na música, o vocabulário é formado por padrões de múltiplas combinações paramétricas (o correspondente a palavras e expressões na linguagem verbal) que através de sucessivas reincidências e repetições ao longo do tempo estabelecem uma determinada configuração a que se denomina estilo musical. Fazem parte desta grande gama de possiblidades expressivas inúmeros componentes, os quais constituem o corpo inteligível de uma frase musical. São exemplos de parâmetros relacionados a este conceito de linguagem: intervalos melódicos, inflexão, discurso, articulação, acentos, agógica, motivos, a relação do solo com o acompanhamento, etc. 

São estes aspectos os responsáveis por garantir que o ouvinte consiga reconhecer um estilo, assim como situá-lo esteticamente. Através da combinação de intervalos e ritmos próprios, músicos também são capazes de se comunicar através de seus instrumentos e interagir coletivamente. Essa identificação auditiva que se dá no âmbito da improvisação idiomática é o que possibilita o entrosamento imediato dos músicos habituados a se expressar através de um mesmo estilo:

“Geralmente eu vejo as pessoas improvisarem, mesmo tocando jazz, e você percebe quando a pessoa vem do choro, porque elas têm o vocabulário do choro, são melodistas e melodistas maravilhosos. Quando você toca com um instrumentista que veio do choro, principalmente pra mim que venho do choro, fica muito fácil tocar junto com ele.” – Toninho Ferraguti (VALENTE, 2014, p.304).

Todo o conhecimento a respeito da prática da improvisação só adquire sentido e aplicabilidade se agregado à capacidade de escutar e reagir rapidamente a uma informação musical. Supõe-se que tal fato deva ocorrer coletivamente, já que o que confere sentido e emoção a um trecho é justamente o produto final resultante da sobreposição de solo e acompanhamento. Uma vez que todos os participantes da execução estão de alguma maneira improvisando – reagindo, conversando musicalmente entre si –, quanto mais profunda for a conexão de todos com a matriz de expressão do estilo em questão, mais intenso e coeso será o resultado artístico. 

Um estilo musical é como um sotaque, são as pequenas idiosincrasias, seus acentos e articulações que o distinguem e o tornam único. No choro, que assim como o jazz teve sua origem na experimentação da improvisação, não é diferente:

O choro, como outros gêneros musicais, possui códigos próprios – responsáveis por traços de sua personalidade – que geraram ao longo de sua história um “vocabulário” também próprio. […] Analisando a música de Pixinguinha, percebe-se um estilo comum de fraseado composto por módulos (patterns, para os jazzistas) que, agrupados e arranjados de diferentes maneiras, caracterizam sua composição (SÈVE, 1999, p.7).

Como a improvisação nasce da indissociabilidade entre os papéis de compositor e instrumentista, sendo compor e executar – neste contexto – gestos consubstanciados, uma arte acaba por influenciar a outra. Estruturas de vocabulário tem sua gênese em situações resultantes de um processo composicional: derivam de frases pensadas e compostas por músicos, sendo ao longo do tempo persistentemente permutadas, aplicadas e repetidas em diferentes contextos até adquirirem vida própria e se estabelecerem como linguagem. 

Essa característica não é exclusiva do choro e do jazz, mas de qualquer linguagem onde figure a espontaneidade de criação e/ou manipulação do texto musical. 

J.S. Bach e seus alunos possuíam um vocabulário de floreios e outros gestos de ornamentação […] as Fantasias escritas são provavelmente meramente os sobreviventes visíveis de uma tradição de improvisação (SCHULENBERG, 1995, p. 20 e 26).


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